Terça-feira, Dezembro 15, 2009

Imperativos primeiros

Tenha um alívio por dia. Ao menos um. E escreva ao som desse alívio a canção dos afetos, dos tambores impudicos, dos ritmos e das pressões que desabam, troféus de perda na enxurrada que carrega para o mar do esquecimento todo o cansaço derrubado na história. Sim, sob o hálito do alívio, de posse do mais público dos anseios de correr no parque e na praia, flutue no irraciocínio nada meticuloso das respirações sem cuidados, esparsas e sem ordem, nenhuma obrigação de seguir a seqüência dos víveres e dos sustos condicionados. Amplie a liberdade ao horizonte físico e onírico, não se permita sonhar com portas fechadas ou ciclones negros. E na noite que se segue a esse despertar ininterrupto dos provérbios livres, deixe diante da fogueira sua confissão de parentesco, seu exemplo de nada deixar para trás.

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

"A alma é divina e a obra é imperfeita." (Fernando Pessoa)

Itinerário de uma ausência, meu primeiro livro de contos, será lançado dia 10/12, às 19 horas, na Biblioteca Pública Estadual, na Enseada do Suá, pela Secretaria da Cultura do ES.

Prometo autógrafos genuínos e dedicatórias sinceras.

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Guilhotina

Que diz a massa, que diz?
Amassa! Errando em motes
por toda a praça

Que diz a massa, que diz?
A messe! Começa, amansa,
depois esquece

Que diz a massa, que diz?
A missa! Mas perde a graça,
Que desperdiça

Que diz a massa, que diz?
A mossa! Vassalos rasos
Saudando a coça

Que diz à massa, que diz?
Aguça! Caça brioches,
Se pão não fuças.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Uma parábola

O inferno é semelhante a um homem que nunca teve ovelhas para perder, mas sempre creu-se no direito a todas. Cercado por próspera vizinhança, resolveu que o vizinho da direita tinha mais do que precisava ou merecia, e subtraiu-lhe uma ovelha, cuja falta o rico proprietário não notou. Ele comeu carne de ovelha e gostou. No dia seguinte, seu vizinho da esquerda perdeu uma ovelha, também sem perceber a falta. A carne de ovelha estava saborosa, embora um pouco menos que no dia anterior.
O homem começou a roubar as ovelhas de cinco em cinco, depois de dez em dez, vinte em vinte, enriquecido pela ausência, indiferença ou covardia de seus vizinhos.
Porque já precisasse de mais espaço, moveu as cercas de lugar, e à esquerda e à direita suas terras iam crescendo, enquanto as de seus vizinhos diminuíam. Em pouco tempo tornou-se o maior fazendeiro da região. Invadiu as casas dos vizinhos e os matou ao fio da espada. Festejou daí pra frente todos os dias, porque não ficava bem para um homem de sua nobre estirpe não dar festas em comemoração às conquistas. Mas já a essa altura, não sentia o gosto do carneiro, e nem todo o vinho da propriedade lhe bastaria para esquecer que estava nu.

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Não sei, não - de Diana Pomba

Teu bico
Teu penico
Teu piercing nanico
É por isso que eu fico

Feijón Blanco


Cada peixe com seu anzol de estimação, que a festa vai começar e quem tiver medo do escuro que não apareça por aqui, pois eu não enxugo lágrimas de ninguém, e não sou besta de assumir o papel de mediadora dessa confusão que sempre fazem aqui. Aliás, fazem porque eu ando viajando e não vejo torcicolo nem que a vaca tussa, e parará, pororô.
E se brinco com coisa séria é porque ninguém disse que isso é errado por aqui também, que seja errado em toda parte, tudo bem, mas eu não sou obrigada a adivinhar que aqui também é, e parará, pororô.
Um dia eu vi um babador tão bonito que tive vontade de comprar para sua mulher, só assim ela pára de ter inveja do meu. Portanto, nem que todos vejam o que acaba de nascer, nem mesmo assim ele nascerá mais depressa. E para quem tem o ouvido muito pouco desenvolvido, até o palavrão tem de ser por escrito.
E quem disse que isso funciona? Pouco me importa, já que um dia é um dia e um mês é um mês, já que se chover de baixo para cima eu tenho tampão no nariz e não me afogo, onde já se viu, pôr lenha na fogueira e depois esquecer o dia de pagar a conta da lenha. Se der certo vai ser bom para a economia, se não der, vamos deitar e dormir e sonhar que se é um frango d’água em dia de sol. É ou não é, sinhá?
E agora chega, que ninguém me paga para ensinar esse bando de burros.

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Diana Pomba ficou assim depois que o seu marido fugiu com uma vendedora de perfumes e a chamou de fedorenta.

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Consultório

Empreste-me essa mulher para os afagos do azar noturno, quero invadi-la de maus tratos exemplares, chover brutalmente no seu molhado parcamente cantado, fazer brotar a música perversa dos seus muitos pesadelos. Deixe-me esconder na caverna dos faunos expulsos suas madeixas desgrenhadas pela miséria de haver se tornado, além de inglória e grosseira, minha. Sua batalha diária será acrescida dos muitos fardos e das muitas dívidas. Sua canseira e seu enfado serão tudo, menos saber. Empreste-me essa mulher tão deliciosamente sofredora, e eu prometo devolvê-la com muitas evoluções disformes, num esforço autorremunerado de fazer crescer sua angústia, doutora, de arqueóloga das psiques.

Sexta-feira, Agosto 21, 2009

Retórica

Na verdade, em que verdades contem ou mintam, era só um rato disfarçado de herói, perito em produzir grandes cicatrizes de pequenos ferimentos. Mas estavam todos nus de epopeias, e lhe dedicavam olhares cobiçosos, e perguntas irrespondíveis, e mesmo querelas menores.

Era toda a praça e toda a cidade um só perigo, o de mergulhar na saliva do famoso interlocutor cansado ter dito o que os mendigos sempre recolhem no ar junto aos demais, vociferando o lixo.