Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012

Sobrevida

A alguém que espere em dia ventoso e inquieto pelo trem que não deu a conhecer seu horário, pelo navio que ninguém sabe se chegará.

A quem tenha passado a vida carregando bagagem de que desconhece o conteúdo, se camisas puídas ou novas, se meias de sete léguas ou centímetros.

Mesmo que te esbugalhassem continuamente os olhos, as benesses e o inusitado e tanto acervo inatingível dos horizontes nunca pisados por ti, fato é que esses teus olhos se adaptariam, órbitas dilatadas, grandes esperas disformes, ao ritmo e à cor desse dito maravilhoso, e tanto de tanto passaria a ser para ti trivial.

Pelo que toma agora teus passos puídos, calça tuas velhas alpercatas sem intensidade, põe às costas o suprimento de pão reles e gasto, mete-te na estrada, que só findará quando findares, e onde de quando em quando te dirás feliz por teres logrado por mais um dia o urubu.

Segunda-feira, Outubro 10, 2011

Comentário sem adoçante

Não é que haja luz em quantidade suficiente. É que nossos olhos se acostumaram à inexorável escuridão. E se dizem, sem nexo com a cena, que a água se tornou mais fresca é que não percebem a própria pele em ebulição de misérias termais, capaz de achar graça fria na água morna.
O vento que nos enche os cabelos de um prazer vibrátil, se abrimos a boca para colher seu ar supostamente benfazejo, captamos a contragosto partículas de ossos tornados cinzas, vindas de outras paragens, tão estrangeiras que delas não temos nome nem memória.
Não é sua saliva, comissão de julgamento, é só uma letra a mais no mistério da chuva.

Quinta-feira, Julho 07, 2011

Empedernidos

Estátuas, como se deixar de pairar, efetuada a paralisia, fosse estatuto e requisito para uma amalgamante cara-metade. Ensimesmados, indecifráveis, em seu mistério desinteressante de desamar-se paulatinamente.
Estáticos, tudo menos fremente, de uma pobreza de movimentos aliciada pela alma comum e aprisionada no pior silêncio sem hálito um do outro. Vasos que se preveniram contra o naufrágio e decidiram deixar de navegar. Uma mal-aventurada e eterna temporada entre negrumes de rocha.
Mas passa um turista, passa um gaiato, passa um ressentido, um covarde com esgar de desprezo pela acrobacia e pelo voo. E chama os empedernidos de amantes. E os condena à eternidade.

Segunda-feira, Maio 16, 2011

Inauguração de olhos

Estilhaçou-se um véu em toda a extensão da planície das almas. De cada pedinte ouviu-se um clamor de dádiva, de cada medida o sopro imponderável do acontecimento espontâneo. Eu bem que vejo as artérias de desejo vertendo um fluido esperançoso e forte. E onde a novidade for matéria de dúvida, essa nova cogitação lhe fará justiça. A explosão de um novo caminho de luz deita fora os obsoletos rascunhos lançados no mundo com a intenção da previdência. O primeiro passante, de pés ainda vacilantes pelo muito peso da tradição do tédio, começa a transitar diante dos invejosos dias velhos.

Quarta-feira, Março 02, 2011

Acontecimento

Quando o sol se derramou na cidade, sem requerimento nem timidez, também aqueles olhos se impuseram na paisagem, indecifráveis e sutis, como quem zomba sem querer de alguma lei que não consegue cumprir.

À medida que a população anônima almoçava sem reservas, arrotando os comentários da manhã útil, apregoando os feitos sem promoção, ela se refez em verbo, avalanche morena e cálida de uma conversa de contralto, um quitute improvável que quase ninguém aprendeu na sobremesa.

E o carro de Apolo terminou o arco inexorável, a escuridão dos vulgares encobriu a terra sem sobressaltos, enquanto os olhos altivos desfilaram no asfalto um samba de cabrocha superior ao entendimento.

Ela se foi, sempre única, em meio ao número incontável dos que não a veriam, mesmo que se repetisse esse olhar de fevereiro.

Quarta-feira, Janeiro 26, 2011

Para tão curta vida

Nem sei se meus olhos são ainda confiáveis como arautos do sentido. Nos desvãos de tanta coisa vista, mais da metade se perdeu ou transmutou no que hoje vive e perece. Ainda assim, cheio de uma coragem que me chega como deboche, feito manobras suicidas, navego nos meandros de uma liberdade que talvez caiba em metade de um bolso.

Que assim seja. O desejo que insiste e a prudência que o vigia são alternadamente roucos e eloquentes, viscerais e nublados. E nenhum hálito de pavor, por mais que sufoque este navegante e lembre as ameaças do inferno, conseguirá submergir por tempo demais o farol que perfura a angústia e devassa o tédio. Pelo tempo de um sopro feliz.

Quarta-feira, Dezembro 15, 2010

Mecanismos precários

Levanto-me e ando. Com cajado lento torno a pontuar a areia molhada do meu deserto. Meu desejo quer profetizar, e permito. Mesmo que ele se embriague e diga o óbvio, e isso me faça rilhar os dentes. Não monto planos nem máquinas. Antes o hoje transcorre novo e se derrama em outro hoje, e a vida acontece em gotas.

Mecanismos precários, meu segundo livro de contos, será lançado dia 16/12, a partir das 18:30, no Palácio Anchieta, no centro de Vitória, ES.