Sábado, Julho 11, 2009

A ponta do iceberg

- O que é isso, Aderbal?
- É a ponta do iceberg
- O quê?
- Ora, Amália. Não vá me dizer que você nunca ouviu falar na ponta do iceberg. O iceberg inteiro,vá lá, quase nunca ele aparece. Mas a ponta...
- Você enlouqueceu, Aderbal? Isto aqui é apenas... apenas...
- A ponta do iceberg. Eu sei. Há muito mais lá embaixo. Mas estou prestes a vê-lo inteiro, desvendar esse mistério.
- Você está delirando, Aderbal. Não existe nada disso. Pára de puxar isto para fora. Alguém vai ver e não vai gostar.
- É isso que tem que acontecer. Alguém ver e não gostar. Se intrigar. Se incomodar. Como pode um iceberg inteiro por aqui e a gente se contentar em ver a ponta, se muito...
- Nossa! Como esfriou, de repente!
- Viu? Já está vindo à tona. Acho que está na metade.
- Se você não parar com isso agora eu vou embora, ouviu? Vou te deixar aí com o seu iceberg.
- Você não pode fazer isso. Mais de dez anos casados. Os meninos. Um patrimônio...
- Escolha: o iceberg ou nós.
- Ta bom. Droga! Nunca mais vou ter uma chance assim.


- A senhora tem certeza de que ele não descobriu?
- Sim, tenho. No máximo viu a metade.
- Ok, a senhora será recompensada. Nunca nos esquecemos de um colaborador.
- Mas... aquilo... era mesmo...
- A ponta do iceberg? Não se sabe. Seja como for, foi levado pela corrente. Um brinde à corrente.
- A ela... tintim.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Fúlvio

Fúlvio tem alucinações. Nem por isso se tornou um ser humano melhor. Ele acaba de ver um escorpião caminhando sobre o arroz no prato de seu vizinho de mesa.

Fúlvio está intimamente satisfeito, não por saber que o escorpião não existe, mas por achar que restam ao outro poucas horas de vida.

Segunda-feira, Junho 15, 2009

Especular

Toda vez que ele via o céu estrelado, era irreprimível a vontade: apanhava o espelho, o grande espelho do banheiro, e o punha lado a lado com sua vista preferida do céu. Assim o infinito ficava simétrico e acabava a sua vertigem. Sim, vertigem. A vertigem que jamais sentira sobre a montanha ou o arranha-céu, ou sobre o cume de todas as fortalezas, e que aflorava à noite ao olhar para cima, era aplacada quando ele clonava seu pedaço perfeito do infinito. Sua paz especular.

Quarta-feira, Abril 01, 2009

Personagens

Nem sempre chego direto ao porto.
Às vezes vou editando a fala
Aproximando-me do rosto final
E quando termino o insulto ou presente,
Vem um sorriso calmo
De um rico proprietário de palavras.

Nem sempre chego direto ao porto
Às vezes vou contornando os faróis
Redesenhando a costa
E quando aporto, trazendo um príncipe ou um vampiro,
Vem um sorriso calmo
De um guia que sabe que não vê.

Quarta-feira, Março 25, 2009

A vítima

Depois do crime mais recente, sempre ficava na esquina um grupo que comentava. O barbeiro dizia que a lâmina descera sobre o pescoço da vítima em diagonal, o que indicava que o assassino era mais alto do que a assassinada. O padeiro dizia que os hematomas no corpo sem vida tinham sido feitos por uma pessoa muito mais forte, que usara para a tarefa as próprias mãos. O verdureiro assegurava que o crime acontecera muito antes de o corpo ser descoberto, pois a cor da pele do cadáver já tivera tempo de mudar.

No fim da conferência, os homens dispersavam-se, pouco ou nada reparando no farmacêutico que havia muito fechara seu estabelecimento. E não viram quando ele esfaqueou mortalmente a vizinha, que sempre achou de mau gosto discutir crimes na rua.

Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

Urbe de promessas

Eu a venho medindo com palmos inexatos
Sei de seu perfume fugidio entre os abismos de cada lupanar
Remendo seus traços, suas pistas escorregadias
Na torpe antiluz que a rodeia, como os sátiros

Eu a felicito, do meu posto de inexato saltimbanco
Memorável isso de não deixar memórias
Lamento sua trilha perdida hoje de novo
E volto sobre meus passos de neblina

Difícil arte a de não desistir do rodopio
E morrer entre pétalas de riso
Da corrida entre os cassinos e o asfalto
E da cegueira dos sinais que nada indicam

Domingo, Dezembro 21, 2008

Estradas

Muitos faróis cegos sem lâmpadas e sem dianteira. Corpos nos interiores que mal se percebem na escuridão dos cansaços.

E se calhar, por um segundo, que o centro do mundo seja aqui, neste grão de asfalto, sem voz nem alento? E se esse momento seco destronar as trajetórias, se ele se bastar de repente e aborrecer os meios, as esperas, os anseios? Se essa abastança vazia se satisfizer sem depois?

A volta para casa. Sombras abertas em leques de cinza e grafite. Esse negrume que ostentam os médios sem alegria no tanque. Veículos lentos.